quinta-feira, 29/10/2026

As múltiplas facetas do burnout entre mulheres

Na última terça-feira, discutimos como a subestimação dos fatores de risco torna o AVC um desafio ainda maior para as mulheres. Hoje, a conversa se volta para outro aspecto crítico da saúde feminina: o…

Compartilhe:

Na última terça-feira, discutimos como a subestimação dos fatores de risco torna o AVC um desafio ainda maior para as mulheres. Hoje, a conversa se volta para outro aspecto crítico da saúde feminina: o burnout. Em uma palestra no Neuro 2026, a psicóloga e autora Ana Luiza Novis destacou a complexidade deste fenômeno, que vai além do ambiente de trabalho. Segundo ela, a sobrecarga que as mulheres enfrentam começa muito antes de suas jornadas profissionais.

Novis enfatizou que o burnout feminino deve ser analisado sob três perspectivas: social, institucional e política. “No âmbito social, muitas mulheres adoecem devido a uma trama incessante de expectativas: cuidar, trabalhar, organizar e acolher, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem”, afirmou. Ela também salientou que, conforme dados do IBGE, as mulheres gastam em média 21,3 horas por semana em tarefas domésticas, enquanto os homens dedicam apenas 11 horas a essas atividades.

Na esfera institucional, a especialista aponta para um problema enraizado: as organizações foram estruturadas sem considerar as responsabilidades de cuidado. Isso resulta em um ambiente de trabalho que ignora as necessidades de quem tem filhos ou cuida de familiares enfermos. “A cultura da disponibilidade constante, aliada a jornadas excessivas e metas desumanas, exacerba a situação. Muitas mulheres se deparam com assédio moral e sexual, que se manifestam através de comentários depreciativos, interrupções recorrentes e desqualificações”, destacou Novis.

Por último, na dimensão política, ela questiona: quem cuida de quem cuida? “O reconhecimento de que o burnout feminino é fruto de fatores sociais e institucionais é crucial. A prevenção depende de políticas públicas efetivas, como a criação de mais creches, licenças parentais compartilhadas, igualdade salarial e ambientes de trabalho seguros psicologicamente”, argumentou.

A psicóloga também mencionou a pressão enfrentada por profissionais da saúde, que lidam com alta carga de estresse e condições de trabalho precárias. “Muitos se tornam viciados em desempenho, acreditando que trabalhar longas horas é a norma, enquanto a exaustão se torna cada vez mais comum”, observou.

Além disso, é importante lembrar que dois terços dos casos de Doença de Alzheimer afetam mulheres, e que os países em desenvolvimento enfrentarão um aumento significativo dessa condição nos próximos anos. Contudo, há 14 fatores modificáveis que podem prevenir até 59,5% dos casos de demência no Brasil. Esses incluem nível de escolaridade, depressão, sedentarismo, hipertensão, diabetes, obesidade, perda de audição, lesões cerebrais traumáticas, colesterol LDL elevado, tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda de visão, poluição do ar e isolamento social. A conscientização e a ação em torno desses fatores são fundamentais para proteger a saúde mental e cognitiva das mulheres.

Crédito da imagem: Afastamentos por burnout crescem mais de 800% em quatro anos